Há pequenas amostras de filmes e depois há o Ganhar a Vida
Então isto é assim: no cinema, como na vida, os melhores filmes são feitos pelas pessoas que mais intensamente vivem. Talvez seja por isso que Ganhar a Vida é um filme assim que é uma coisa por demais. Depois de vez em quando, alguém se lembra de espalhar um boato e dizer que o Entre os Dedos ou o Morrer como um Homem são filmes bons e só me apetece rir na cara de quem diz isso, seja quem for. Porque, mas só porque, são filmes completamente banais, repletos de banalidades mas armados ao pingarelho.
Quem for minimamente sincero consigo mesmo, poderá abertamente dizer isto. Realizadores que descobrem os filtros e conseguem introduzir a meio de um filme uma cena completamente parada, tingida de vermelho, cheia de gente que actua muito mal até parada, não podem nunca ser considerados bons. Mesmo se tentarmos atingir ali alguma ideia, algum nervo, que não existe. Não existe intenção, não existe fogo, não existe inspiração. Porquê? O realizador não faz filmes com as entranhas.
Quem for minimamente sincero consigo mesmo, poderá abertamente dizer isto. Realizadores que descobrem os filtros e conseguem introduzir a meio de um filme uma cena completamente parada, tingida de vermelho, cheia de gente que actua muito mal até parada, não podem nunca ser considerados bons. Mesmo se tentarmos atingir ali alguma ideia, algum nervo, que não existe. Não existe intenção, não existe fogo, não existe inspiração. Porquê? O realizador não faz filmes com as entranhas.
O preciso oposto reside no Ganhar a Vida (e, certamente, nos Sapatos Pretos e restantes filmes de João Canijo, mas sobre isso não posso falar porque não vi). Ali, cumpre-se o luto a comer pastéis de bacalhau, dançar-se Romana, conhece-se a comunidade portuguesa na França como ela é. Isso consegue-se de uma única maneira: perfeita integração do realizador no tema e, mais, na vida como ela é. E, meus amigos, isso não está ao alcance de todos porque é preciso ser-se MUITO BOM.
Ali, todos os actores são de uma honestidade que assusta, todos, todos. A Rita Blanco está merecedora de um Óscar, a fotografia é um assombro. Ganhar que vida? A que se perdeu? Uma nova, que está para vir? O fim em aberto deixa-nos divagar e sangramos do nariz e choramos e perdemo-nos com a Cidália. E quando ali se diz caralho e foda-se diz-se com a linguagem da rua mesmo, caraças. Passa-se na França mas podia passar-se em qualquer lado do mundo, ao fim e ao cabo, porque aquela dor é universal, todos os sentimentos que perpassam por aquelas personagens são universais. No fim, existe uma barreira entre dois mundos, entre duas vidas, a que resta e a que vai. Quando a Cidália ganhar bem a vida, já não existe Cidália tal como a conhecemos inicialmente.
Foda-se, Ganhar a Vida é um filme do caralho! MESMO!




